quarta-feira, 6 de maio de 2009

Concepções éticas

Clique aqui e acesse o texto trabalhado na aula do dia 06/06/2009.

Senso Moral, Consciência Moral, Juízo de Fato e Juízo de Valor

A filósofa Marilena Chauí nos ajuda a compreender melhor esses conceitos:

SENSO MORAL
Muitas vezes, tomamos conhecimento de movimentos nacionais e internacionais de luta contra a fome. Ficamos sabendo que, em outros países e no nosso, milhares de pessoas, sobretudo crianças e velhos, morrem de penúria e inanição. Sentimos piedade. Sentimos indignação diante de tamanha injustiça (especialmente quando vemos o desperdício dos que não têm fome e vivem na abundância). Sentimos responsabilidade. Movidos pela solidariedade, participamos de campanhas contra a fome. Nossos sentimentos e nossas ações exprimem nosso senso moral.
Quantas vezes, levados por algum impulso incontrolável ou por alguma emoção forte (medo, orgulho, ambição, vaidade, covardia), fazemos alguma coisa de que, depois, sentimos vergonha, remorso, culpa. Gostaríamos de voltar atrás no tempo e agir de modo diferente. Esses sentimentos também exprimem nosso senso moral.
Em muitas ocasiões, ficamos contentes e emocionados diante de uma pessoa cujas palavras e ações manifestam honestidade, honradez, espírito de justiça, altruísmo, mesmo quando tudo isso lhe custa sacrifícios. Sentimos que há grandeza e dignidade nessa pessoa. Temos admiração por ela e desejamos imitá-la. Tais sentimentos e admiração também exprimem nosso senso moral.
Não raras vezes somos tomados pelo horror diante da violência: chacinas de seres humanos e animais, linchamentos, assassinatos brutais, estupros, genocídio, torturas e suplícios. Com freqüência, ficamos indignados ao saber que um inocente foi injustamente acusado e condenado, enquanto o verdadeiro culpado permanece impune. Sentimos cólera diante do cinismo dos mentirosos, dos que usam outras pessoas como instrumento para seus interesses e para conseguir vantagens às custas da boa-fé de outros. Todos esses sentimentos manifestam nosso senso moral.
Vivemos certas situações, ou sabemos que foram vividas por outros, como situações de extrema aflição e angústia. Assim, por exemplo, uma pessoa querida, com uma doença terminal, está viva apenas porque seu corpo está ligado a máquinas que a conservam. Suas dores são intoleráveis. Inconsciente, geme no sofrimento. Não seria melhor que descansasse em paz? Não seria preferível deixá-la morrer? Podemos desligar os aparelhos? Ou não temos o direito de fazê-lo? Que fazer? Qual a ação correta?
Um pai de família desempregado, com vários filhos pequenos e a esposa doente, recebe uma oferta de emprego, mas que exige que seja desonesto e cometa irregularidades que beneficiem seu patrão. Sabe que o trabalho lhe permitirá sustentar os filhos e pagar o tratamento da esposa. Pode aceitar o emprego, mesmo sabendo o que será exigido dele? Ou deve recusá-lo e ver os filhos com fome e a mulher morrendo?
Um rapaz namora, há tempos, uma moça de quem gosta muito e é por ela correspondido. Conhece uma outra. Apaixona-se perdidamente e é correspondido. Ama duas mulheres e ambas o amam. Pode ter dois amores simultâneos, ou estará traindo a ambos e a si mesmo? Deve magoar uma delas e a si mesmo, rompendo com uma para ficar com a outra? O amor exige uma única pessoa amada ou pode ser múltiplo? Que sentirão as duas mulheres, se ele lhes contar o que se passa? Ou deverá mentir para ambas? Que fazer? Se, enquanto está atormentado pela decisão, um conhecido o vê ora com uma das mulheres, ora com a outra e, conhecendo uma delas, deve contar a ela o que viu? Em nome da amizade, deve falar ou calar?
Uma mulher vê um roubo. Vê uma criança maltrapilha e esfomeada roubar frutas e pães numa mercearia. Sabe que o dono da mercearia está passando por muitas dificuldades e que o roubo fará diferença para ele. Mas também vê a miséria e a fome da criança. Deve denunciá-la, julgando que com isso a criança não se tornará um adulto ladrão e o proprietário da mercearia não terá prejuízo? Ou deverá silenciar, pois a criança corre o risco de receber punição excessiva, ser levada para a polícia, ser jogada novamente às ruas e, agora, revoltada, passar do furto ao homicídio? Que fazer?

CONSCIÊNCIA MORAL
Situações como essas – mais dramáticas ou menos dramáticas – surgem sempre em nossas vidas. Nossas dúvidas quanto à decisão a tomar não manifestam apenas nosso senso moral, mas também põem à prova nossa consciência moral, pois exigem que decidamos o que fazer, que justifiquemos para nós mesmos e para os outros as razões de nossas decisões e que assumamos todas as conseqüências delas, porque somos responsáveis por nossas opções.
Todos os exemplos mencionados indicam que o senso moral e a consciência moral referem-se a valores (justiça, honradez, espírito de sacrifício, integridade, generosidade), a sentimentos provocados pelos valores (admiração, vergonha, culpa, remorso, contentamento, cólera, amor, dúvida, medo) e a decisões que conduzem a ações com conseqüências para nós e para os outros. Embora os conteúdos dos valores variem, podemos notar que estão referidos a um valor mais profundo, mesmo que apenas subentendido: o bom ou o bem. Os sentimentos e as ações, nascidos de uma opção entre o bom e o mau ou entre o bem e o mal, também estão referidos a algo mais profundo e subentendido: nosso desejo de afastar a dor e o sofrimento e de alcançar a felicidade, seja por ficarmos contentes conosco mesmos, seja por recebermos a aprovação dos outros.
O senso e a consciência moral dizem respeito a valores, sentimentos, intenções, decisões e ações referidos ao bem e ao mal e ao desejo de felicidade. Dizem respeito às relações que mantemos com os outros e, portanto, nascem e existem como parte de nossa vida intersubjetiva.

JUÍZO DE FATO E DE VALOR
Se dissermos: “Está chovendo”, estaremos enunciando um acontecimento constatado por nós e o juízo proferido é um juízo de fato. Se, porém, falarmos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”, estaremos interpretando e avaliando o acontecimento. Nesse caso, proferimos um juízo de valor.
Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Em nossa vida cotidiana, mas também na metafísica e nas ciências, os juízos de fato estão presentes. Diferentemente deles, os juízos de valor - avaliações sobre coisas, pessoas e situações - são proferidos na moral, nas artes, na política, na religião.
Juízos de valor avaliam coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis.
Os juízos éticos de valor são também normativos, isto é, enunciam normas que determinam o dever ser de nossos sentimentos, nossos atos, nossos comportamentos. São juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e ações segundo o critério do correto e do incorreto.
Os juízos éticos de valor nos dizem o que são o bem, o mal, a felicidade. Os juízos éticos normativos nos dizem que sentimentos, intenções, atos e comportamentos devemos ter ou fazer para alcançarmos o bem e a felicidade. Enunciam também que atos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou incorretos do ponto de vista moral.
Como se pode observar, senso moral e consciência moral são inseparáveis da vida cultural, uma vez que esta define para seus membros os valores positivos e negativos que devem respeitar ou detestar.
Qual a origem da diferença entre os dois tipos de juízos? A diferença entre a Natureza e a Cultura. A primeira, como vimos, é constituída por estruturas e processos necessários, que existem em si e por si mesmos, independentemente de nós: a chuva é um fenômeno meteorológico cujas causas e cujos efeitos necessários podemos constatar e explicar.
Por sua vez, a Cultura nasce da maneira como os seres humanos interpretam a si mesmos e suas relações com a Natureza, acrescentando-lhe sentidos novos, intervindo nela, alterando-a através do trabalho e da técnica, dando-lhe valores. Dizer que a chuva é boa para as plantas pressupõe a relação cultural dos humanos com a Natureza, através da agricultura. Considerar a chuva bela pressupõe uma relação valorativa dos humanos com a Natureza, percebida como objeto de contemplação.
Freqüentemente, não notamos a origem cultural dos valores éticos, do senso moral e da consciência moral, porque somos educados (cultivados) para eles e neles, como se fossem naturais ou fáticos, existentes em si e por si mesmos. Para garantir a manutenção dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a geração, as sociedades tendem a naturalizá-los. A naturalização da existência moral esconde, portanto, o mais importante da ética: o fato de ela ser criação histórico-cultural.

Desejo, necessidade, vontade

Ensinando a Aprender - A importante diferença entre necessidade e desejo

Uma das maiores fontes de sofrimento é a confusão que muitas pessoas fazem entre “necessidades não atendidas” e “desejos não realizados”.
“Necessidades” referem-se a aspectos básicos da condição humana - alimentar-se, vestir-se, ter um lugar para morar, etc. Quando essas necessidades não são atendidas, o ser humano vive numa condição sub-humana e deve lutar, com todas as suas forças, para que essas necessidades sejam atendidas. A determinação das “necessidades” evolui com o passar dos séculos e com a civilização. Pode-se até considerar como “necessidades” do mundo moderno, ter acesso a telefone, à luz elétrica, à educação de qualidade, emprego, etc., necessidades que simplesmente não existiam nas sociedades primitivas ou mesmo rurais dos séculos passados.
“Desejos” são manifestações de nossa vontade. Não são necessidades. São desejos. Assim, temos o desejo de um carro novo, de um televisor maior, de um celular que nos permita fotografar. Temos também o desejo de ser promovido, de ter uma sala maior no trabalho, de conquistar maior fatia do mercado, de viajar para o exterior ou para uma bela praia. Isso tudo são “desejos” e não “necessidades”.
Posso controlar meus desejos. Posso mudar meus desejos. Posso postergar meus desejos. Mas não posso postergar a minha fome, o meu frio, a minha doença. Assim, tenho o livre arbítrio em relação aos meus desejos, mas não tenho em relação às minhas necessidades.
Se confundirmos “desejos não realizados” com “necessidades não atendidas”, com certeza viveremos num grande sofrimento pois que, pensando que desejos são necessidades pensaremos não conseguir viver sem nossos desejos realizados. E seremos eternos infelizes, pois nossos desejos mudarão, aumentarão e nunca conseguiremos realizá-los todos.
Sabendo essa importante diferença você poderá controlar seus desejos e adaptá-los à sua realidade e condição e será mais feliz. É claro que você deve sempre desejar mais e desejar coisas melhores e melhores condições de vida. Mas nunca deve confundir desejo com necessidade.
Ensinar às crianças essa importante diferença filosófica é fundamental para que cresçam como pessoas equilibradas e com a dimensão correta sobre as coisas pelas quais devam lutar. Pense nisso.

Fonte: http://www.fundacaolamf.org.br/index.php?option=content&task=view&id=54&Itemid=42

Os Dilemas Morais

O Trem descontrolado
Um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevinidas sobre uma linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. Você mudaria o trajeto, salvando as 5 e matando 1?
Se você respondeu que “sim, mudaria o trajeto” está entre a maioria das pessoas (97%). Por algum motivo temos uma visão utilitarista do mundo. Pensamos que a atitude mais correta é a que resulta na maior felicidade para o máximo número de pessoas. Mas há um porém. Por exemplo, se multiplicássemos por 1 milhão: você mataria 1 milhão de pessoas para salvar 5 milhões? Decisões assim sustentaram diversos regimes totalitários que desgraçaram uma minoria em nome da maioria.

O trem descontrolado - parte 2
Imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevinidos. Agora, porém, há uma linha só. O trem pode ser parado por algum objeto pesado jogado em sua frente. Um homem com uma mochila muito grande está ao lado da ferrovia. Se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando 5 pessoas, mas liquidando uma. Você empurraria o homem da mochila para a linha?
Pela lógica, esse dilema é a mesma coisa que o anterior. Continua sendo trocar 1 vida por 5. Mesmo assim a maioria das pessoas (75%) não empurraria o homem. O que acontece aqui é que preferimos não nos envolver diretamente na morte daquela pessoa. No caso anterior entendemos que ela morre por consequência do trem a atingindo e não porque diretamente nos envolvemos empurrando-a para dentro do trilho. Nossa mente aceita matar um próximo de maneira indireta (através de uma máquina ou ferramenta por exemplo) do que sujando nossas próprias mãos. Nada muito nobre, diga-se.

Totem e tabu
No seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. Você é tenente do Exército e recebe um prisioneiro recém-capturado que grita: “Alguns de vocês morrerão às 21h35″. Suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. Para saber mais e salvar civis, você o torturaria?
Países como os EUA e Israel se valem de dilemas como esse para tentar legalizar a prática da tortura em seus territórios. Essa situação se parece com as anteriores em termos de salvar o maior número de vidas mas temos uma tendência ainda maior de contrariá-la. A razão pode estar no nojo. Isso mesmo: a maioria das pessoas sente nojo - aquela vontade de vomitar ao olhar um esgoto - quando assistimos uma sessão de tortura.

Os limites da promessa
Um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém. Você dá sua palavra. Ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. Quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?
Pasmem ou não: a resposta aqui varia de cultura para cultura. Os russos acusariam o amigo na lata. Os americanos protegeriam o amigo mentindo na cara dura e dando pistas erradas. Os brasileiros inventariam histórias malucas para dizer que a culpa não era do amigo e sim do pedestre, que era suicida. Saber que a moral muda de acordo com a cultura é importante para não julgarmos costumes de um povo como se fossem os nossos mas, podem haver dilemas morais ainda mais difíceis como o próximo…

Choque cultural
Você é um funcionário da Funai, trabalhando na Amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena. Passeando perto de uma clareira, nota que ianomânis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. Você impediria a morte do bebê?
Essa situação é exatamente combatida pela ONG Atini que tenta acabar com o infanticídio entre os índios brasileiros. A ONG foi formada pelos pais adotivos da ianomâni Hakani, que viveu um caso parecido em 1995. Hakani foi encontrada por um casal de funcionários da Funai. Um antropólogo do ministério público tentou barrar a adoção, dizendo que era uma agressão à cultura ianomâni. E aí, o que vale mais: a vida humana ou o respeito às tradições de um povo?
Não há uma resposta definitiva. Os absolutistas morais colocam a vida humana acima das tradições enquanto que os relativistas morais fazem o contrário. Talvez a solução do dilema esteja na hesitação dos pais. Ela mostra que o infanticídio não é um consenso entre os índios. Ou seja, o terror emocional diante de matar ao próprio filho existe mesmo em culturas que admitem matar suas crianças.

06/05/2009 - O retorno

Prezados alunos, bom dia!!

Bom... Antes tarde do que nunca. O blog volta à sua atividade normal, depois de alguns atropelos que me impediram de atualizá-lo adequadamente.

Um forte abraço,

Cap Pollyanna