quarta-feira, 6 de maio de 2009

Os Dilemas Morais

O Trem descontrolado
Um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevinidas sobre uma linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia acionando uma alavanca que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. Você mudaria o trajeto, salvando as 5 e matando 1?
Se você respondeu que “sim, mudaria o trajeto” está entre a maioria das pessoas (97%). Por algum motivo temos uma visão utilitarista do mundo. Pensamos que a atitude mais correta é a que resulta na maior felicidade para o máximo número de pessoas. Mas há um porém. Por exemplo, se multiplicássemos por 1 milhão: você mataria 1 milhão de pessoas para salvar 5 milhões? Decisões assim sustentaram diversos regimes totalitários que desgraçaram uma minoria em nome da maioria.

O trem descontrolado - parte 2
Imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevinidos. Agora, porém, há uma linha só. O trem pode ser parado por algum objeto pesado jogado em sua frente. Um homem com uma mochila muito grande está ao lado da ferrovia. Se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando 5 pessoas, mas liquidando uma. Você empurraria o homem da mochila para a linha?
Pela lógica, esse dilema é a mesma coisa que o anterior. Continua sendo trocar 1 vida por 5. Mesmo assim a maioria das pessoas (75%) não empurraria o homem. O que acontece aqui é que preferimos não nos envolver diretamente na morte daquela pessoa. No caso anterior entendemos que ela morre por consequência do trem a atingindo e não porque diretamente nos envolvemos empurrando-a para dentro do trilho. Nossa mente aceita matar um próximo de maneira indireta (através de uma máquina ou ferramenta por exemplo) do que sujando nossas próprias mãos. Nada muito nobre, diga-se.

Totem e tabu
No seu país, a tortura de prisioneiros de guerra é proibida. Você é tenente do Exército e recebe um prisioneiro recém-capturado que grita: “Alguns de vocês morrerão às 21h35″. Suspeita-se que ele sabe de um ataque terrorista a uma boate. Para saber mais e salvar civis, você o torturaria?
Países como os EUA e Israel se valem de dilemas como esse para tentar legalizar a prática da tortura em seus territórios. Essa situação se parece com as anteriores em termos de salvar o maior número de vidas mas temos uma tendência ainda maior de contrariá-la. A razão pode estar no nojo. Isso mesmo: a maioria das pessoas sente nojo - aquela vontade de vomitar ao olhar um esgoto - quando assistimos uma sessão de tortura.

Os limites da promessa
Um amigo quer lhe contar um segredo e pede que você prometa não contar a ninguém. Você dá sua palavra. Ele conta que atropelou um pedestre e, por isso, vai se refugiar na casa de uma prima. Quando a polícia o procura querendo saber do amigo, o que você faz?
Pasmem ou não: a resposta aqui varia de cultura para cultura. Os russos acusariam o amigo na lata. Os americanos protegeriam o amigo mentindo na cara dura e dando pistas erradas. Os brasileiros inventariam histórias malucas para dizer que a culpa não era do amigo e sim do pedestre, que era suicida. Saber que a moral muda de acordo com a cultura é importante para não julgarmos costumes de um povo como se fossem os nossos mas, podem haver dilemas morais ainda mais difíceis como o próximo…

Choque cultural
Você é um funcionário da Funai, trabalhando na Amazônia sob ordem expressa de jamais intervir na cultura indígena. Passeando perto de uma clareira, nota que ianomânis estão envenenando o bebê de uma índia, que está aos prantos. Você impediria a morte do bebê?
Essa situação é exatamente combatida pela ONG Atini que tenta acabar com o infanticídio entre os índios brasileiros. A ONG foi formada pelos pais adotivos da ianomâni Hakani, que viveu um caso parecido em 1995. Hakani foi encontrada por um casal de funcionários da Funai. Um antropólogo do ministério público tentou barrar a adoção, dizendo que era uma agressão à cultura ianomâni. E aí, o que vale mais: a vida humana ou o respeito às tradições de um povo?
Não há uma resposta definitiva. Os absolutistas morais colocam a vida humana acima das tradições enquanto que os relativistas morais fazem o contrário. Talvez a solução do dilema esteja na hesitação dos pais. Ela mostra que o infanticídio não é um consenso entre os índios. Ou seja, o terror emocional diante de matar ao próprio filho existe mesmo em culturas que admitem matar suas crianças.

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